Somos Diocesano, essa é a diferença!

Eis o título do alentado livro com o qual Dr. Manoel de Medeiros Brito brindou a sociedade potiguar, na terça-feira passada (02/8/22). É pena que os jornais de hoje deixaram de publicar cadernos literários e resenhas de obras editadas. No primoroso trabalho, nosso preclaro amigo transita da autobiografia, perpassando pela crônica e análise política, assim como pelo registro histórico dos principais fatos e acontecimentos das últimas nove décadas, especialmente no RN. Um memorial da sociedade norte-rio-grandense do século XX, adentrando o XXI. Os estudiosos e pesquisadores deverão fazer uma acurada análise do texto. Ali, não faltam evocações sobre a sua querida terra, Jardim do Seridó, inclusive considerações de cunho social. O autor dessa obra valiosa é do tempo em que os estudantes de Direito obtinham o título de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.

O livro é de leitura amena, prazerosa e enriquecedora. São seiscentas páginas escritas num estilo elegante e sem afetação, português castiço, isento de gírias, embora esteja presente o regionalismo ou “sertanejidade”, na expressão de nosso saudoso Oswaldo Lamartine. O seu lançamento ocorreu nas dependências da Escola Doméstica de Natal, integrante da Liga de Ensino do RN, sendo presidida brilhantemente pelo autor. Foi um marco. Há tempos não se via por aqui tanta gente em busca de um livro. Durante mais de cinco horas, autografou aproximadamente quatrocentos exemplares da obra para amigos e ávidos leitores. Todavia, não é pequeno o número daqueles que não puderam comparecer ou esperar. Um jovem dissera: “A fila parecia com a do vestibular.” O comparecimento de tantos ao evento é uma prova da admiração e consagração por parte de muitas pessoas que sabem do seu valor. Foi a expressão do reconhecimento da sociedade a alguém que conquistou inúmeros admiradores, ao longo de sua trajetória, como procurador de instituições, parlamentar, conselheiro do Tribunal de Contas, educador, secretário de estado e dirigente de instituições de ensino e filantrópicas.

Conheço Dr. Manoel de Brito, desde minha tenra infância. Ele e papai, tinham vários amigos em comum: Stoessel de Brito, Dinarte Mariz, Dr. Morton de Faria, Monsenhor Walfredo Gurgel, Dom José Delgado etc. Durante muito tempo, Dr. Brito foi procurador da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância de Jucurutu, presidida pelo meu genitor, por quase vinte anos. Dr. Manoel possui uma invejável capacidade de trabalho e ingente responsabilidade. Afável, cortês, leal, prestativo e caridoso. É de uma fidalguia ímpar, enfatizando sua nobreza d’alma, virtude rara nos dias atuais. Transcende o compadrio, um dos traços inconfundíveis e relevantes da cultura seridoense. É de singular solidariedade com os amigos, aos quais sempre diz: “Mande as ordens” ou então: “se eu posso, você poderá.” Revela deste modo sua capacidade de servir. Herdou de seus pais, lembrando sua inolvidável mãe, o carisma da hospitalidade. Imbuiu-se, desde os tempos de seminário, das palavras da Sagrada Escritura: “Há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20, 35). 

Confesso que o seu livro me emocionou em vários momentos de sua leitura. Além do registro da vida potiguar a partir da década de 1930, revela a sua simplicidade, retidão de caráter, humildade e fé. Devoto fervoroso de Nossa Senhora da Conceição (orago de sua paróquia de origem), Brito é um homem de bem e do Bem. Admirável é o seu amor e dedicação à família, uma das características fortes do Seridó. Fala com carinho e orgulho de seus filhos, muito bem-criados e educados. Deus reservou-me a missão de realizar as exéquias de dona Yeda, sua primeira esposa. Concedeu-me ainda o privilégio de presidir o matrimônio religioso de alguns de seus descendentes. Posteriormente, coube-me abençoar seu casamento com dona Elizabete. Grande foi a minha alegria, em celebrar a missa de ação de graças pelos seus noventa anos de exitosa existência. A magnanimidade de seu caráter e a grandeza de seu coração acolheram-me como um membro de sua família, sempre tratado com muita ternura e afeição. Como cristão e sacerdote, lembro as palavras bíblicas do Livro do Sirácida ou Eclesiástico: “Façamos o elogio dos homens ilustres” (Sr 44, 1).