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29/11/2017 Discurso do Pe. João Medeiros, um dos agraciados com a "Comenda Dom José Delgado".

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom. Eterno é seu amor, incomensurável a sua misericórdia (Sl 118/117, 1)

Dois grandes acontecimentos comoveram o povo seridoense. Lágrimas e tristeza transbordavam na alma de nossa população. A frase evangélica, descrevendo o sentimento de desolação do apóstolo Pedro seria bem apropriada: Et flevit amare valde (Lc 22, 62) Chorou copiosa e dolorosamente. Trata-se primeiramente da transferência de Dom José de Medeiros Delgado do bispado de Caicó para a arquidiocese de São Luís do Maranhão. A cidade chorou como se houvesse morrido um ente querido. Na verdade, ele foi o amigo, pai e pastor de toda uma geração e deixou na consciência de muitos a marca do Divino e o sabor do Céu. O Seridó, durante meses, parecia de luto e no coração de muitos havia o dobre dos sinos da saudade. Isto se dera em 1951. Vinte anos depois, Caicó derramaria lágrimas novamente e só Deus haveria de enxugar seu pranto. Desta vez, foi a morte de Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel, amigo e contemporâneo de Dom Delgado no Colégio Pio Latino-americano, em Roma. Monsenhor organizou a diocese, foi seu primeiro vigário geral e diretor do Ginásio Diocesano Seridoense, educador notável, homem de Deus, totalmente dedicado a seu povo.

Justa, oportuna e merecida essa comenda com o nome e o patrocínio de nosso primeiro bispo Dom José de Medeiros Delgado. Educador por excelência, pastor solícito, amigo de todos, apaixonado pelo desenvolvimento do homem integral, Inspirou-se no pensamento de Jacques Maritain, a quem conheceu na Europa. Posteriormente, familiarizou-se com seu pensamento, através de sua grande amizade e convivência com Tristão de Athayde, que chamava Dom Delgado de meu bispo e padrinho. Alceu Amoroso Lima chegou a dizer: Dom Helder é um profeta. Mas, Dom Delgado é o pastor e educador. Foram grandes amigos, a tal ponto da filha de Alceu, Lia, posteriormente abadessa do Mosteiro Beneditino de São Paulo, referir-se a Dom Delgado com o nome carinhoso de Meu tio bispo nordestino.

A teoria e a doutrina do humanismo integral do filósofo francês marcaram a vida de nosso primeiro bispo e sua obra educadora no Seridó e no Maranhão. Não podemos esquecer que, por intermédio de Tristão de Athayde, Dom Delgado conheceu e privou da amizade de grandes intelectuais, pensadores e, pedagogos brasileiros da época, dentre eles: Gustavo Capanema, Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Pedro Calmon e Dom Lourenço de Almeida Prado.

Formar o homem em todas as suas dimensões sempre foi o sonho e o desejo do grande homenageado desta noite. Da erudição livresca e dos conhecimentos humanistas básicos, transmitidos no vetusto Ginásio Diocesano, Dom Delgado partiu para a primeira experiência de ensino profissionalizante do Brasil, fundando a Escola pré-vocacional de Caicó, cujo objetivo era preparar para a vida aqueles que não teriam condições de se tornar bacharéis. Ao lado dessas duas entidades de ensino, organizou uma espécie de fazenda modelo para que os futuros doutores do Seridó se lembrassem de suas origens, conscientes de que eram filhos de agricultores e criadores. Dessa fazenda – “Sítio do bispo” – cuidaram, durante muito tempo, as irmãs do Amor Divino, lideradas pela Irmã Volkmara Stonoscheck, que na canícula do meio dia orientava os internos do ginásio e os seminaristas na colheita de algodão, frutas e hortaliças para recordar o labor dos seus pais e a luta daqueles que suam para ganhar o pão de cada dia. Cuidar da inteligência, do corpo e da alma era a visão do humanismo integral de nosso primeiro bispo diocesano. Assim, na estrutura regimental do ginásio deixou a figura do diretor espiritual a fim de cuidar da dimensão transcendental e mística dos futuros líderes do Seridó.

Na sua concepção desenvolvimentista, que integrava sua filosofia de educador, Dom Delgado importou para o sítio, contíguo ao ginásio, vacas leiteiras holandesas e touros de raça para aumentar o plantel dos fazendeiros seridoenses.

A visão de educador de nosso primeiro antístite era pioneira. Para melhorar a vida familiar e a formação da dona de casa, fundou a Escola Doméstica Popular Darcy Vargas. Esta não possuía o requinte das escolas suíças, que influenciaram a importante e centenária Escola Doméstica de Natal. Para tanto, nosso saudoso Dom José Delgado seguiu as orientações de sua grande amiga Maria Teresa de Faria, esposa de Alceu Amoroso Lima e pedagoga exímia. Dom Delgado conviveu com grandes expoentes da cultura e educação brasileira. E é digno de nossa profunda admiração, pois se tratava de um bispo jovem, oriundo do sertão, detentor de rara visão, imensa ternura e respeito ao ser humano.

Releve-nos a prolixidade destas palavras. Mas, o patrono desta comenda – inspirador de dissertações de mestrado e teses de doutorado – ainda é pouco conhecido no seu brilho e na sua grandeza pedagógica, pastoral, teológica e cultural. Seu pensamento educacional era abrangente e voltava-se para cada aspecto da realidade humana do Seridó. Dotou a cidade de Caicó da sua primeira creche, denominada Pupileira. Seu objetivo era servir de campo de estágio para as alunas da escola doméstica e receber as crianças das primeiras mães que já entravam no mercado de trabalho.

Legou à diocese a casa de formação dos futuros sacerdotes, o tradicional Seminário Santo Cura d´Ars, erigido ao lado do ginásio, a fim de que os presbíteros de amanhã pudessem conhecer os futuros líderes políticos e sociais, profissionais liberais, governantes e chefes de família, dos quais teriam o dever de cuidar como padres.

Grande é a nossa emoção, neste momento, ao receber ingente honraria e ao relembrar a figura de tão ilustre eclesiástico, que marcou nossa alma de criança e jovem, despertando nossa vocação sacerdotal, quando o ouvimos comentar a beleza do Sermão da Montanha e falar da misericórdia, que é sinônimo do coração de Deus.

Ao falar de Dom Delgado, não podemos esquecer seus gestos de ecumenismo e inclusão, no início da década de 1940, quando sequer se pensava ou se falava dessas realidades. Convidou para lecionar – apesar da crítica de padres e leigos conservadores – dois mestres protestantes para lecionar no novo ginásio. Àqueles que mordaz e impiedosamente lhe teciam críticas, respondia tranquilamente: Não os convidei para ensinar religião. É preciso também que os cidadãos e os cristãos saibam conviver com as diferenças. Palavras sábias e proféticas, partidas de um jovem bispo, há 75 anos, antecedendo os gestos do Vaticano II e as ações do Papa Francisco.

Fala-se tanto hoje em educação inclusiva, em cotas e vagas. Nosso inesquecível primeiro bispo, em cada paróquia de sua diocese fundou uma “Escola dos Pobres” para alfabetizar e educar crianças, jovens e adultos que não tinham acesso às escolas tradicionais e que já trabalhavam para ajudar a garantir uma renda familiar condigna.

Pode-se aquilatar a grandeza educacional, humana e pastoral de Dom Delgado, quando apesar da rigidez do direito canônico, então vigente, conferiu as primeiras ordens sacras ao seminarista Luís de França, jovem epilético – impedido de ser ordenado pelo rigor dos cânones da época. Padre Luís, como era conhecido, foi a alma da Escola pré-vocacional e o exemplo de piedade e dedicação aos mais simples e esquecidos da sociedade. Padre Luís veio a falecer no Recife, antes da unção presbiteral, não do mal da epilepsia, mas de ataque cardíaco, emocionado pela graça de poder ser ordenado e diante da magnanimidade de um coração de pastor.

Esta honraria é síntese de um pensamento educacional, ícone de um pastor e bispo à frente de seu tempo, marco de novas décadas para o Seridó. Dom José de Medeiros Delgado amou tanto a sua obra educacional, que renunciou à pompa das catedrais, a que fazia jus, para acolher seu corpo e quis demonstrar seu grande apreço pelo Ginásio que fundou, escolhendo esta igreja para seu túmulo. Com este gesto queria nos dizer: Aqui permanecerei, pois aqui deixei o melhor de mim mesmo.

A gratidão é a delicadeza da alma e a nobreza do coração humano, lembrada por Cristo, após o episódio da cura dos dez leprosos. Hoje, diante de seus familiares, dos convidados e sobretudo diante de Dom Antônio Carlos, bispo também de sua primeira diocese, nós queremos agradecer em nome de todos o trabalho pedagógico de um pastor que veio para servir ao Povo de Deus e não se servir dele.

Várias personalidades e instituições estão aqui presentes para receber esta comenda. Algumas vivem entre nós, outras celebram o banquete da eternidade.

Ao querido Monsenhor Walfredo, primeiro diretor deste ginásio nossa reverência e saudade. Há algo digno de nota. Dom Delgado, apesar das reticências de alguns padres, nomeou Padre Walfredo diretor do ginásio, em lugar do Cônego Amâncio Ramalho, que havia dirigido o Colégio Diocesano Santa Luzia de Mossoró e fora o primeiro Secretário de Educação do Estado do Rio Grande do Norte. Prefiro Walfredo, É teólogo, educador, maleável, homem de diálogo, conhece a alma do seridoense. E o pastor conhece as suas ovelhas, afirmou nosso saudoso antístite ao nomear o filho de Mãe Quininha para dirigir os destinos do ginásio diocesano.

Uma palavra de saudade e de profunda admiração ao nosso querido: Padre Itan Pereira da Silva – um dos sacerdotes mais brilhantes que pisaram o chão seridoense. Aqui introduziu o atual ensino médio, reformando e ampliando o prédio e fazendo funcionar a Rádio Rural, educadora de tantos. Deve também ser lembrado Dom Manuel Tavares de Araújo, apoiando incansavelmente padre Itan para dotar o ginásio do que havia de melhor em recursos humanos e materiais.

Não se pode esquecer neste momento o abnegado Cônego José Celestino Galvão, educador por vocação, que além de dirigir o ginásio diocesano, criou e foi diretor de uma escola normal, sendo precursor da radiofonia caicoense com a sua famosa difusora, que ecoava em todos os cantos da cidade. Nossa homenagem a Monsenhor Ausônio Tércio de Araújo diretor por várias décadas, cuja presença é marcante e reconhecida no Colégio Diocesano Seridoense.

Queremos tributar nossa homenagem à Diocese de Caicó ao completar hoje 78 anos de criação, pelo seu desmedido empenho para manter, ao longo destes 75 anos, esta obra tão importante para a Igreja e a sociedade do Seridó.

Cabe ainda enaltecer a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sentinela dos sonhos das gerações seridoenses. Essa instituição universitária foi enriquecida por muitos mestres, oriundos desta Casa, dentre eles: Monsenhores Agripino e Tércio, Cônego Galvão, Padres José Mário, Ausônio de Araújo Filho e José Dantas Cortês, Irmã Paulina e Dom José Adelino Dantas, bispo emérito de Ruy Barbosa, declarado pelos colegiados da UFRN doutor por notório saber para que pudesse transmitir aos jovens seus conhecimentos, sobretudo a doçura de seu coração e a riqueza de sua alma de sábio e santo. Em 1974, um jovem sacerdote desta diocese implantou esse marco da educação superior do Rio Grande do Norte. Ao lado do colégio funcionou o antigo NAC (Núcleo Avançado de Caicó), que deu origem ao atual CERES, em instalações cedidas gratuitamente por Dom Manuel Tavares de Araújo para que fosse possível concretizar o sonho do ensino superior no Seridó. A esta obra nossa homenagem. Merecida é a concessão desta medalha pelos largos e incontáveis serviços em prol da educação e da cultura do Seridó.

A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN, parceira em tantos momentos do educandário, nosso reconhecimento, lembrando que num momento difícil para o colégio e a diocese, a UERN conveniou com ambos e incorporou um curso livre de filosofia, que hoje é uma de suas licenciaturas.

Cabe uma palavra especial à Província de Nossa Senhora das Neves das Filhas do Amor Divino pelo seu relevante contributo a esta instituição escolar. Durante vinte anos as irmãs dirigiram a cozinha (do internato) da entidade, o sítio contíguo e a Escola pré-vocacional. A História não esquecerá os nomes das irmãs Volkmara, Vilma, Alice, Josélia, Melânia, Benjamina e tantas outras religiosas dedicadas.

Mais personalidades aqui são homenageadas, dentre elas: os professores Laércio Segundo de Oliveira, vice-diretor e professor desta instituição, atualmente presidente do Conselho Estadual de Educação. À professora Afra Ubaldo de Góis Cunha, o Seridó reconhece e agradece seu papel de mestra e educadora. É preciso lembrar a Associação do Ex-aluno, tão marcante no cuidado de registrar os fatos e conservar a memória dessa relevante instituição. Graças a seu contributo outros jovens, de parcos recursos, estão podendo continuar os seus estudos. Merecida homenagem.

Uma palavra de gratidão e reconhecimento a Padre Francisco de Assis Costa e Silva, que deu novo ânimo a este colégio. Primeiramente buscou a sua regulação, pois a outorga governamental já estava vencida. Merece encômios sua dedicação para que esta entidade fosse credenciada, seus cursos autorizados e posteriormente reconhecidos, como ato maior que o sistema estadual de ensino do RN concede às instituições de ensino fundamental e médio, que comprovam excelência. Obrigado Padre Costa pelo seu silencioso, mas profícuo e importante trabalho.

Exegi monumentum aere paerenius, escreveu o poeta latino. Sim, aqui está uma obra mais duradora do que o bronze.

E coroando este momento tão solene e significativo para o bispado caicoense, queremos prestar nossa homenagem especial ao bispo diocesano, Dom Antônio Carlos Cruz Santos, hoje aniversariante, rogando a Deus e a Maria Santíssima que o abençoe e o ilumine na sua missão de pastor. Deus o recompense pelo seu incansável trabalho de fazer repensar o Reino de Deus nestes sertões seridoenses, buscando uma Igreja aberta, acolhedora, inclusiva, despojada e desarmada, sem ranços de clericalismo e sem preconceitos, preocupada com os deserdados e os esquecidos. Sim, uma Igreja realmente de Cristo, sacramento terreno da Palavra Divina. Nossos duplos parabéns pelo dom de sua vida e pelo pioneiro apostolado nesta diocese. Cabem-lhe bem as palavras de São Paulo a Timóteo: Praedica verbum, insta opportune, importune, argue, increpa, obsecra in omni longanimitate et doctrina (2Tm 4, 2). Proclama a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, convence, repreende, exorta com toda a paciência e preocupação de ensinar. Dom Antônio Carlos, obrigado por reanimar os fiéis desta diocese e relembrar os ensinamentos de nosso saudoso Dom Delgado. Este dizia sempre: Cristo veio pregar o Evangelho, que incomoda e não acomoda.

Deus abençoe a todos nesta noite de festa e alegria, dessa alegria que é a filha predileta de Deus, na expressão de Santo Agostinho e consequência do Evangelho, como bem se expressa o Papa Francisco no seu documento Evangelii Guadium.

Que Sant´Ana, Senhora doce e clemente, mãe da Mãe do Salvador, que transmitiu à sua filha o amor profundo, o saber e o sabor da Palavra, possa marcar esta terra de um fervor pelo ensinamento de Cristo e pela vivência do seu Evangelho. Muito obrigado a todos.

CAICÓ, 25 DE NOVEMBRO DE 2017.

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO

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